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O processo de pesquisa em Psicologia

A pesquisa de que falaremos agora insere-se, como vimos, no contexto de cincia, com as caractersticas 
gerais que esta ltima apresenta. Trata-se, portanto, de pesquisa cientfica. Realiz-la significa participar de um 
longo processo, que se inicia a partir da necessidade de se responder a uma pergunta, a uma questo, cuja 
complexidade  tal que os meios do senso comum, leigos, no se mostram como caminhos adequados para o 
encontro de uma resposta segura. Imagine-se, por exemplo, em uma situao de sala de aula, onde durante uma 
conversa comum voc pergunta a um colega do ltimo ano: quais as opes de rea de trabalho mais 
freqentes entre os alunos de Psicologia? Provavelmente ele no teria dificuldade em responder por estar no 
ltimo ano e conhecer seus colegas e, tambm, tendo em vista a situao  uma simples conversa 
, aceitaramos sua resposta sem grandes indagaes. 
Suponha, agora, que voc esteja interessado em estudar, pesquisar os currculos das faculdades de Psicologia 
no Brasil e sua relao com as opes de rea de trabalho feitas por seus alunos. Um caminho simples como o 
anterior  perguntar a um colega  seria, sem dvida, insuficiente para responder a uma questo to complexa. 
Voc perceberia, por exemplo, que perguntar apenas a um colega no bastaria; seria necessrio selecionar uma 
amostra adequada e representativa de toda a populao de estudantes de Psicologia, das vrias faculdades 
brasileiras. Voc teria de considerar tambm a que tipos de opes est se referindo: pela diviso tradicional de 
reas  Psicologia Clnica, Educacional e do Trabalho  ou por outras divises. E poderamos ainda arrolar in9 
meros outros cuidados que se deveria ter para obter respostas mais seguras e confiveis a questes como 
esta. 
No resta dvida, porm, que tanto na vida diria, como no mtodo cientfico, utilizamos elementos comuns 
para se resolver problemas: fazemos perguntas, formulamos hipteses atravs da observao, e chegamos a 
concluses sobre o mundo ao nosso redor. A pesquisa cientfica  apenas um refinamento daquilo que 
fazemos para compreender, explicar e interferir sobre os eventos. Ela se apresenta como uma proposta de 
mtodos, de caminhos que visam a buscar respostas a questes (que envolvam relaes entre fenmenos), de 
uma maneira tal que so eliminadas ou minimizadas as probabilidades de erro, de influncias dogmticas, e que 
pretende se aproximar da verdade clara, precisa e objetivamente colocada. 
E, tambm, um mtodo de estudo e investigao que pretende assegurar uma relao completamente explcita 
entre as respostas que se obtm e os passos que foram seguidos para obt-las. Ao contrrio do misticismo 
dos dogmas de f, das verdades auto-evidentes, a pesquisa cientfica precisa deixar claros todos os 
fundamentos, as bases de suas concluses. 
2.1. O problema de pesquisa (a questo a ser respondida) 
A preocupao em buscar respostas claras, objetivas e precisas no torna a atividade de pesquisa isolada, 
imune s influncias e contradies sociais. Desde sua primeira etapa, que  formular o problema de 
pesquisa a ser investigado, o pesquisador recebe influncias de seu meio cultural, social, psicolgico e 
filosfico. A escolha de um problema para estudo provm de grupos, comunidades e tradies nas quais o 
pesquisador se move (Runkel, 1972). Ela tanto pode refletir o estgio atual de conhecimento da cincia, onde 
h lacunas a serem preenchidas  e o pesquisador, ento, decide realizar um estudo para preench-las , como 
pode refletir o prprio investigador: seus conhecimentos, seus interesses e circunstncias de vida. 
H, ainda, uma determinao mais ampla (e nem sempre notada) na formulao do problema de pesquisa: o 
modelo de anlise do pesquisador, sua concepo sobre o mundo (se materialista ou idealista, por exemplo), 
com seus objetivos e valores (Varsavsky, 1976). 
Pode-se escolher pesquisar um mesmo fenmeno psicolgico  agressividade, por exemplo , enfocando-se relaes muito 
diferentes. Um pesquisador pode formular o seguinte problema de pesquisa: 
Qual a relao entre a agressividade de um indivduo e o nvel de frustrao de seus 
anseios sociais? 
Outro pesquisador poderia faz-lo com outro enfoque: 
Qual a relao entre a agressividade de um indivduo e a estrutura de sua personalidade? 
Note que cada um segue uma direo diferente para buscar a resposta. A primeira proposta de pesquisa, acima colocada, 
pretende buscar a resposta na sociedade, no ambiente, provavelmente; a segunda, no prprio indivduo. Refletem, 
portanto, dois modelos de concepo do homem, de seus determinantes (no exclusivos, necessariamente). 
Como bem aponta Varsavsky (1976): 
Toda definio e descrio  ideolgica, j que significa escolher as caractersticas mais importantes do conceito ou do 
problema e deixar de ado muitas outras coisas. Esta gradao de importncia implica uma imagem prvia do mundo, com 
seus objetivos e valores, alm de seu modelo causal (op. cit., p. 77). 
Para explicitar e assumir essa natureza do problema cientfico, o pesquisador deve analisar se este atende a dois critrios de 
relevncia: relevncia social e relevncia cientfica. 
Relevncia social. E somente quando se acredita que a cincia no  neutra, que se faz este tipo de discusso. Sabe-se 
que um problema de pesquisa pode se encaminhar para direes diferentes, dando prioridades para certos aspectos de 
fenmenos, para certas parcelas da populao, para certas relaes. Nesse sentido  importante saber qual a relevncia de 
um estudo para uma determinada sociedade; quais as conseqncias, para uma sociedade, de se fazer um estudo como este? 
Se voc refletir sobre o que temos discutido e apresentado at aqui, ver que no h uma nica resposta  pergunta: o 
problema de pesquisa  relevante socialmente? No entanto, h questes que podemos fazer para encontrar estas respostas: 
 Quem se beneficiar com a resoluo do problema? Quais as conseqncias sociais de um estudo? 
 Quais os critrios de escolha do pesquisador para investigar certos problemas de pesquisa? Quais foram suas prioridades? 
 Que parcela da populao o problema atinge? 
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Certamente os valores daquele que julga a relevncia social de um problema vo determinar a natureza da 
concluso. O que  prioridade para uns, no e para outros, e assim por diante. 
Portanto, esta anlise da relevncia social no tem a principal funo de julgar, mas sim de explicitar quais so 
as direes possveis daquele estudo e suas diferentes conseqncias. 
Relevncia cientfica. Se um problema trouxer novos conhecimentos para a rea cientfica  qual ele se 
relaciona, ento se dir que ele  relevante cientificamente. Para se chegar a essa resposta, o pesquisador 
precisa fazer um levantamento bibliogrfico da rea, entrando em contato com as pesquisas j realizadas, 
verificando quais problemas esto por investigar, quais no foram investigados suficientemente, quais 
pesquisas possuem resultados contraditrios e quais tcnicas e procedimentos precisam ser melhor estudados 
(Sidman, 1960). Este estudo bibliogrfico, embora muitas vezes demorado, deve ser feito, buscando-se livros 
da rea e revistas cientficas, que provavelmente teriam artigos sobre o assunto. H, inclusive, peridicos que 
publicam sumrios de pesquisas, tais como Psychological Abstracts, que sempre devem ser consultados 
antes de se iniciar uma nova pesquisa. E esta possibilidade de se ter acesso a outros trabalhos, atravs de 
suas publicaes, que d  cincia o carter de cumulatividade, de ser um empreendimento pblico que cresce 
pela constante troca e acmulo de conhecimentos, mesmo que produzidos em diferentes partes do mundo. 1 
Se um pesquisador atentar para esses dois critrios na elaborao de seu problema de pesquisa e explicitar de 
que maneira ele atende a ambos ao redigir seu relato, ter oferecido duas grandes contribuies para o avano 
e melhor caracterizao da cincia: ao explicitar qual a relevncia social (por que a pesquisa  importante para a 
sociedade), estar nos fornecendo os parmetros para que vejamos a interao pesquisa-sociedade em seu 
trabalho, para que saibamos a que parcela dessa sociedade a pesquisa est servindo; ao explicitar a relevncia 
cientfica (descrevendo outras pesquisas j realizadas), nos reportar ao que j foi produzido pela cornunidaGe 
cientfica na rea, dando-nos seu panorama mais atual e a contribuio da pesquisa nesse contexto. 
1 Quando apresentarmos algumas orientaes gerais para a publicao de um relato de pesquisa, nos 
estenderemos sobre como realizar esta reviso bibliogrfica. 
2.2. Algumas regras para a formulao de um problema de pesquisa 
Como afirma um velho provrbio, um problema bem colocado est meio resolvido. As 
experincias de muitos pesquisadores revelaram que algumas regras so teis para a boa elaborao 
de um problema. Reunimos as principais para voc: 
A primeira delas nos diz que um problema de pesquisa deve ser formulado sob a forma de 
pergunta, pois esta forma  mais direta e facilita a sua identificao pelo leitor. O estudo de 
Guilhardi e colaboradores (1977)  um exemplo de apresentao da questo de pesquisa diretamente 
na forma de pergunta: o sujeito pode mlhorar seu ritmo de trabalho em atividades escolares  sem 
que se tenha que eliminar seus problemas disciplinares em primeiro lugar?. O objetivo dos autores 
era trabalhar diretamente com o desempenho acadmico do aluno e, paralelamente, observar o que 
ocorria com os comportamentos considerados inadequados. 
A segunda orientao na formulao de questes de pesquisa sugere que elas sejam especficas e 
no amplas, gerais. Isto porque uma pergunta muito geral, de grande amplitude, no fornece claras 
direes para a busca de respostas, pois estas podem ser muitas e muitos podem ser os caminhos. 
Suponha que um pesquisador esteja interessado na relao entre pais e filhos e pergunte: Como  a 
relao entre pais e filhos?. Perceba que esta ampla questo sugere muitas respostas, muitas 
facetas a serem consideradas. H inmeras possibilidades de estudo, mtodos e procedimentos para 
chegar a uma infinidade de possveis respostas, to amplas e gerais que no forneceriam dados para 
o entendimento da questo. Poder-se-ia escolher um aspecto de relao pais e filhos, por exemplo: 
como ela se d nas vrias idades, em vrios contextos, tais como o social, sexual, escolar. A sim 
poderamos decidir se os dados sobre esses aspectos poderiam ser obtidos atravs de observao 
direta dos comportamentos ou atravs de questionrios, entrevistas etc. 
A funo de uma pergunta ampla  fornecer o tema da pesquisa, a preocupao central do 
pesquisador. No entanto,  preciso especificar os elementos que compem este tema e explicitar 
qual deles ser tratado. 
Vejam no estudo de Marturano (1977), por exemplo, como o tema amplo, anteriormente 
apresentado, pode ser especificado e, por isso, tornar-se um estudo com um mtodo simples e direto 
para a busca de possveis respostas: o objetivo de Marturano foi o de iden 12 
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tificar relaes entre os comportamentos verbais da criana e da me, no curso da interao, em uma situao 
estruturada rotineira  o almoo da criana , por ser uma situao onde h maior probabilidade de se terem 
estabelecido padres de interao relativamente estveis. Com esta especificao, a autora pde realizar um 
estudo onde caracterizou as famlias estudadas em termos de idade e sexo das crianas e as interaes verbais 
entre elas e as mes, concluindo por uma reciprocidade de controle na relao. 
Um terceiro requisito para a boa formulao de um problema  quanto  clareza,  preciso e ao carter emprico 
de seus termos. Vejamos a que isto se refere. 
A cincia  basicamente uma atividade que envolve a linguagem, transmitida atravs do tempo pelos relatos 
escritos daqueles que nela trabalharam. Neste sentido, os cuidados com os termos empregados devem ser 
grandes, pois uma palavra pode ter, ao mesmo tempo, vrios sentidos e muitas vezes no se referir a eventos 
passveis de observao. Assim, a primeira regra de linguagem para a formulao de um problema  que seus 
termos sejam claros, deixando explcito o significado que est sendo usado, o contexto onde se insere. Uma 
expresso do tipo como seu filho se comporta? contm um verbo que precisa ser esclarecido quanto ao seu 
significado, pois comportar-se, em Psicologia, refere-se a um conjunto de aes em um determinado 
conexto, desempenhos que podem ser adequados ou inadequados, dependendo das contingncias 
especficas. No senso comum, utiliza-se este verbo para se referir apenas a desempenhos adequados. 
E necessrio, tambm, que os termos sejam precisos, deixando claros os limites de sua aplicabilidade, embora 
se saiba, em certo sentido, qual o seu significado. No estudo de Jabur (1976), por exemplo, cujo objetivo era 
determinar o efeito do local de estudo no comportamento de estudar adequadamente, foi necessrio definir o 
que era estudo adequado e inadequado, pois, embora se tenha uma idia de seu significado, o termo por si s 
no  preciso, na medida em que no nos diz quais os limites entre o que  considerado adequado e o que  
considerado inadequado. 
Ainda em relao aos termos do problema, se requer que sejam observveis, direta ou indiretamente. E aqui 
temos um assunto complexo em cincia: o seu carter emprico (do qual falamos na p. 7), a necessidade de 
que seus problemas de pesquisa possam ser testados empiricamente pelos dados da experincia. 
Embora haja muitas discusses a respeito, para ns  fundamental que a pesquisa tenha sempre esse carter 
emprico, que seja guiada pela busca de evidncias factuais de suas hipteses. 
Uma das razes que sustenta a afirmao de que a pesquisa cientfica deve fazer questes testveis 
empiricamente  a de que l.ermite atingir os objetivos de previso e controle de fenmenos, dos quais j 
falamos na pgina 6. Como j apontamos anteriormente, prever significa poder dizer: Se fizermos isto, 
provavelmente ocorrer aquilo, e controlar significa poder interferir, mudar o curso dos fenmenos: O que 
ocorrer se ensinarmos crianas a ler pelo mtodo silbico e no mais pelo mtodo fontico a que esto 
acostumadas?. Para isto,  preciso definir, em termos concretos, empricos, o que so os fenmenos 
estudados, pois esse tipo de definio nos levar aos dados, e  deles que precisamos para prever o que 
ocorrer, e, conseqentemente, poder interferir (instalando ou no o mtodo). 
Para ns, esta posio que d nfase ao emprico se contrape radcalmente s crenas, aos dogmas de f, 
onde a evidncia emprica pouco importa. J no chega a se contrapor tanto  filosofia, com as teorizaes 
puras, com o mundo das idias, porque, embora eles no contenham fatos observveis como evidncias para 
suas concluses, no as excluem como possibilidade e necessidade. Dentre os autores que adotam essa 
possibilidade esto, por exemplo, os empiristas J. Locke (1632-1704), D. Hartley (1705-1757), 
J. Huli (1773-1836) e, mais recentemente, filsofos da cincia, tais como C. Hempel 
(1974) e Rudner (1976). 
Vale notar, entretanto, que esta posio em cincia e pesquisa 
 a valorizao da busca do emprico , embora possa reunir um grande nmero de adeptos, no se caracteriza 
como a nica posio existente. A razo para tal  que o conceito de emprico se apresenta controvertido, 
no necessariamente quanto ao que ele significa (a experincia, o factual, o observvel), mas quanto  
possibilidade de se obt-lo. 
H, a grosso modo, duas posies antagnicas: a objetivista (ou materialista) e a subjetivista (ou idealista). 
O primeiro modelo entende que os estudos sobre o homem deveriam tomar os fatos tal como eraw tomados 
nas cincias exatas, isto , como coisas, dados existentes em si mesmos, independentemente das 
caractersticas daquele que a investiga: a subjetividade, os valores, as posies filosficas e tericas do 
sujeito investigador eram totalmente isoladas do processo de conhecimento. 
A outra posio  subjetivista ou idealista  postula que o conhecimento  pura atividade da conscincia do 
sujeito, negando ao objeto de estudo qualquer status de existncia real, pois este seria o produto da 
elaborao subjetiva daquele que o investiga. 
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Assim, a obteno do emprico seria, nesta segunda posio, invivel, impossvel, dada a natureza da relao sujeito-objeto 
que postula. Portanto, a cincia no poderia ser caracterizada pela busca de relaes empiricamente comprovadas. 
J na primeira  a posio objetivista ou materialista  a cincia se volta a isto:  busca de relaes empricas, que se 
apresentariam independentemente da maneira como o pesquisador as dispusesse ou formulasse. 
Embora a atividade cientfica tenha sido tradicionalmente caracterizada por apresentar uma forte marca objetivista, para ns 
ela descreve inadequadamente a atividade de pesquisa. 
Entendemos, como j foi apontado anteriormente, que a pesquisa sempre se insere em um contexto histrico, social, 
econmico e poltico e que as formulaes do pesquisador, derivadas desse contexto, vo determinar o problema a ser 
investigado, o procedimento a ser seguido e os dados a serem coletados. Em outras palavras, embora se busque o emprico, 
o dado,  sabido que ele  produto de todos os fatores acima colocados, e no uma entidade inabalvel, com existncia 
pura, isento das influncias daquele que o investiga. 
Em Psicologia, especialmente, onde o sujeito humano busca entender sua prpria natureza e processos de relacionamento,  
inegvel a relao entre aquele que pesquisa e aquele que  pesquisado. O contexto cultural, a histria de vida, est presente 
em ambos, e tem que ser levado em conta a todo momento. Mas isto no nos leva ao idealismo. H, ainda, em nossa 
posio, uma nfase na busca de dados, do emprico;  uma posio basicamente materialista. O que se modifica ou 
acrescenta  a considerao de que as variveis do pesquisador, na investigao do objeto de estudo, so importantes 
 a relao sujeito (pesquisador) e objeto (pesquisado)  complexa, e deve ser exaustivamente estudada. 
Consideramos necessrio dizer, ainda, que esta identificao entre o que se pensa que cincia  (postura filosfica) e .o 
que efetivamente se faz nem sempre  clara e direta. Com isto, estamos querendo dizer que antes de se identificar os 
ismos e istas das posies de pesquisadores em cincia,  melhor verificar o que efetivamente fazem. 
Daqui em diante voc entrar em contato com as descries de outras etapas de pesquisa. Procuraremos, em determinados 
momentos, mostrar-lhe alternativas de construo do processo de pesquisa; voc ver, ento, mais claramente, as diferentes 
nfases que so dadas ao emprico, e voc constatar, por s mesmo, a proximidade ou o distanciamento com a postura que 
apresentamos aqui. Vamos, ento, ao processo de pesquisa propriamente dito. 
